Procurando Elly

ENTREVISTA EXCLUSIVA: ASGHAR FARHADI (PROCURANDO ELLY)

Procurando Elly
CINEMA E CLAUSURA

O cineasta iraniano Asghar Farhadi

Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro e aclamado no mundo inteiro, A Separação acaba de ser lançado em DVD para locação. Há dois anos, seu diretor, Asghar Farhadi, concedeu entrevista exclusiva para a Revista da 2001, em que discutiu o Irã, política e seu longa anterior, Procurando Elly.

Antes de A Separação, Farhadi conquistou o Urso de Prata no Festival de Berlim com Procurando Elly, drama iraniano disponível em DVD no acervo da 2001

Uma das marcas do cinema iraniano, pelo menos o que chega a nós no Brasil, é seu traço humanista, principalmente aquele feito por cineastas como Jafar Panahi e Abbas Kiarostami. De onde vem esse viés?
Este viés nos temas dominantes do cinema iraniano se origina de duas razões significativas; primeiro, os aspectos culturais, históricos e orientais do Irã que sempre privilegiaram visões humanitárias, embora elas nunca refletissem e expressassem a abordagem oficial e estatal do país, mas, para compensar essa carência e desatenção, os artistas sempre tentaram priorizar essa olhar humanista. Como você sabe, em um governo em que a ideologia tem a primeira palavra, os seres humanos estão sempre sombreados. Segundo, o cinema iraniano sempre esteve sob forte censura no que diz respeito aos temas.

Recentemente o diretor Jafar Panahi esteve preso devido aos seus posicionamentos políticos. Como é fazer arte e cinema em clima político tão intransigente?
Para se entender completamente a resposta dessa pergunta é necessário ter um bom entendimento e apreciação da sociedade iraniana. Não creio que a arte deva se tornar inoperante e estática quando se depara com restrições e obstáculos impostos pelo Estado. Se acreditarmos na arte como sendo dinâmica e vibrantemente viva, vamos compreender que, não importa quão difícil e sufocante o sistema se torne, o cinema irá duplicar seus esforços para sobreviver e atravessar os reveses. Para ratificar esse argumento, você pode reparar que algumas das obras-primas da arte e do cinema são produzidas e criadas sob condições estritamente adversas.

Procurando Elly

Quais foram as suas inspirações para fazer um thriller forte, com toques dramáticos, como Procurando Elly?
Em termos de enredo, o filme foi feito a partir de várias fontes, especialmente minhas memórias pessoais da minha juventude quando eu frequentemente viajava com os meus amigos. Em termos dramáticos e formais, ele foi influenciado principalmente pelas minhas experiências teatrais.

Um dos traços marcantes do seu filme Procurando Elly é o fato de ele tratar de um tema que é universal, porém dentro de um país com um regime político, para nós, ocidentais, muito fechado. Como foi para você buscar essa universalidade?
As obras de arte mais universais são aquelas mais locais. Eu não consigo me lembrar de uma obra-prima que não seja inerente aos tons locais. Pessoalmente, acredito que as diferentes culturas tenham mais aspectos compartilhados e coisas em comum do que de antagonismos. Seres humanos de línguas e culturas diferentes têm várias características e opiniões em comum. Embora, infelizmente, os governos sempre tendem a salientar os conflitos e colisões entre as culturas mais do que suas opiniões comuns. A morte é o cerne e o eixo central de Procurando Elly. A morte tem o mesmo significado para todas as pessoas do mundo. A partir de outra perspectiva, as alusões e vestígios sociais da história não são discutidas e explicitamente tratadas, mas são entrelaçadas na estrutura oculta e no subtexto da trama. É por isso que ele passou pelos rigorosos olhos das autoridades encarregadas da censura no Irã, enquanto o público intelectualizado tem a chance de descobri-los e entender o significado oculto do filme. Por último, gostaria de enfatizar que a universalidade do filme se origina pelo fato que as questões ocultas no subtexto da história serem entendidas e apreciadas em diferentes culturas.

Farhadi no set

Um dos principais temas do filme é que uma pequena mentira pode gerar consequências muito grandes, que a mentira é incontrolável. Na sua experiência pessoal, como você encara a mentira?
Sempre se acreditou que os mais horríveis episódios são resultados das escolhas mais horríveis. Mas no mundo moderno, às vezes pequenas escolhas, ações e decisões podem levar a péssimas e terríveis consequências. Acredito que a mentira é um dos instrumentos do mundo moderno, mas não a aprecio do ponto de vista moral. Quando me deparo com mentiras, tento entender sobre quais condições e pressões a pessoa está sendo obrigada a mentir. Em Procurando Elly, o grupo de pessoas mente para manter a sua vulnerável e instável condição e sua relativa paz de espírito. Ele conta pequenas mentiras e tem que lidar com terríveis consequências e sua relativa paz é destruída.

Além do roteiro, a direção de atores acaba se destacando no filme. Você pode descrever um pouco o processo de como funcionou esse processo?
Provavelmente vem da minha experiência anterior com o teatro. Dois meses antes do projeto começar, nós ensaiamos com os atores como se o roteiro do filme fosse feito para o teatro. Durante as filmagens todos os atores e atrizes alcançaram um entendimento comum de suas atuações. Eles acreditavam totalmente em seus papéis e estabeleceram empatia com seus personagens.

O elenco do filme, que inclui dois atores de A Separação:  Shahab Hosseini e Peyman Moadi [da esquerda para a direita]

Procurando Elly foi premiado no Festival de Berlin com o Urso de Prata, além de ter participado de vários festivais pelo mundo, você acredita que esses prêmios podem trazer uma nova revitalização do cinema iraniano?
Acredito que existam dois tipos de qualidades neste tipo de premiação. Elas podem resultar na promoção e na introdução do cinema iraniano para o mundo e para o público internacional. Mas também pode resultar, infelizmente, na produção de filmes iranianos que tem como intenção agradar os festivais internacionais. A curto prazo, esses prêmios têm ajudado a melhorar o papel do Irã no cinema mundial, mas também influenciaram uma larga escala de filmes que são realizados apenas com a premiação como objetivo.

Um dos fatos que mais chamam atenção na política interna do Irã hoje é o fato do governo estimular a imigração de opositores. Há algum membro ou do elenco ou da equipe técnica que esteja exilado no momento?
Sim, como você suspeitou. A protagonista, Sepideh, do filme vive atualmente fora do Irã. [a atriz Golshifteh Farahani, que vive Sepideh, está vivendo no exílio na França devido aos seus posicionamentos políticos, além de ter participado do filme norte-americano Rede de Mentiras, de Ridley Scott. Procurando Elly, por enquanto, é seu último trabalho dentro do Irã. Farahani é também cantora e recentemente lançou o álbum Oy, em parceria com o músico iraniano, também exilado, Mohsen Namjoo]

Golshifteh Farahani (à esquerda) em cena do filme

Assim como o cinema iraniano é pouco difundido no Brasil, o cinema brasileiro deve ser pouco difundindo no Irã. Você conhece alguma coisa sobre o nosso cinema?
Não mais do que eu conheço sobre o seu futebol. Falando sério agora, o cinema da América Latina é cada vez mais reconhecido e apreciado no Irã atualmente, especialmente os cinemas mexicano, argentino e brasileiro. Um dos filmes mais conhecidos e apreciados pelo público em geral é Cidade de Deus.

OPINIÃO: PROCURANDO ELLY

Antes do aclamado A Separação, o iraniano Asghar Farhadi já chamava a atenção da crítica com seu trabalho anterior, Procurando Elly, disponível para locação na 2001

Cineasta iraniano, Asghar Farhadi constrói um denso filme sobre um fato “mínimo”, utilizando a simplicidade como base, assim como em seu último trabalho, o aclamado A Separação, de 2011.

Alguns casais vão ao litoral durante o fim de semana, tudo absolutamente dentro da realidade daquele país. Em meio a esta corriqueira situação, os personagens se deparam com o sumiço de uma das mulheres que acompanhavam a excursão. A partir daí, o cineasta abre as portas para a discussão de diversos conflitos, como a moral irretocável, a posição da mulher na sociedade, as relações humanas em geral – como já é saliente em seu trabalho.

 

Carregado de suspense, Procurando Elly intriga pela simplicidade, realidade e aparente imparcialidade política (visto o conturbado sistema político iraniano). Considerado o maior cineasta do Irã na atualidade, Farhadi tem formação teatral, daí a atenção especial à dramaturgia exposta no trabalho dos atores, figuras sempre centrais em sua cinematografia.

A atriz Taraneh Alidoosti interpreta a Elly do título

As nuances da história, as esperanças de encontrar com vida a mulher desaparecida, as discussões sobre como ela sumira, tudo isso é revelado lentamente através dos personagens; logo, estes são o cerne do filme, são os motivos e causas para os efeitos de suas atitudes.

Vencedor do Urso de Prata de melhor direção em 2009, Procurando Elly é uma ótima opção para quem quiser se inteirar sobre o rico cinema iraniano, ainda pouco difundido no Brasil.

Comentário de
Jeferson Ramos
Colaborador da 2001 Paulista
Av. Paulista, 726, Bela Vista – São Paulo – SP